O comboio vem de Tomar. Pára em todas as estações e apeadeiros até à Azambuja. Depois, Vila Franca de Xira, Alverca, Póvoa e, finalmente, Gare do Oriente. Do Entroncamento, partida prevista para as 17H36. Pontual.
Composição antiga, lotação meio completa, metade das pessoas a dormitar; todas as janelas abertas, pois a tarde é de Agosto (a climatização não chegou ainda a estes comboios). Meia dúzia de homens, meia idade, amena cavaqueira. Todos ferroviários, pois claro. Uma mulher também de meia idade, duas ou três idosas, um velho (ou deverei voltar a escrever idoso?).
O comboio anda devagar, preguiçoso. Também a quente tarde não dá para mais. Mal arranca, eis o primeiro apeadeiro. Sai um passageiro, entra outro. Ambos idosos. Percebe-se que o comboio ainda desempenha, neste como noutros locais, uma importante função social. A este apeadeiro sucedem-se outros, e outras estações, estas últimas sempre com um edifício afastado da bilheteira onde se lê, em cantos opostos, WC Senhoras e WC Homens. Será isto que distingue estações de apeadeiros, um WC?
Os apeadeiros têm um ar modesto e quase sempre, mesmo ao lado, uma passagem de nível, onde aguardam, resignados, meia dúzia de automóveis. Casas de habitação, térreas, caiadas, estão já ali em cima da linha, íntimas. Que descanso será o daquelas gentes quando à noite passam os comboios de mercadorias? Mas quem se pode queixar se o nome da terra for Virtudes?
Estações e apeadeiros no meio do campo, entre tomatais e milheirais, do lado do rio, na lezíria que mais e mais se estende, pois que do lado oposto da linha é a charneca, ainda com alguns sobreiros e azinheiras, cada vez mais eucaliptais. Uns e outros apresentam uma uniformidade espantosa. Mais diversificadas são as gentes que em Santarém entram no comboio. Ele é o casal de idosos, o jovem par de namorados, a mulher de meia idade e, até, o despreocupado turista com máquina fotográfica ao pescoço. Noutros meses entrariam estudantes, entrariam militares, mas nem há aulas nem é sexta-feira. Seja como for, a carruagem começa a encher, o barulho das conversas aumenta. No banco oposto ao meu senta-se um casal jovem: ela ouve música, ele lê o Diário de Notícias e vai comentando uma ou outra notícia. Riem-se, despreocupados. Mais ninguém lê. Eu próprio abandonei o livro para me concentrar na paisagem, nas pessoas.
Chega, e senta-se, uma mulher com ar estafado. Encosta a cabeça à janela, abraça a carteira e começa a lutar com o cabelo, que o vento, audaz, que entra pelas janelas abertas, teima em desfazer. Acaba por desistir. Ninguém se atreve a fechar as janelas sob pena de sufocar e, assim como assim, mais vale o cabelo despenteado. A mulher sairá na Azambuja. Antes, porém, abrirá cuidadosamente a mala de onde retirará um anel e a aliança, colocando-os nos dedos. Que viria de fazer que a teria obrigado a retirar o anel e a aliança?
Azambuja, 18h30. Que contraste com a estação de Santarém! Nesta ainda há arquitectura, cal, azulejos; naquela só tubos retorcidos, escadas rolantes, maus grafitis a completar o desatre. A estação de Santarém tem-se mantido anos, seguramente só com uns baldes de cal; à de Azambuja não lhe dou meia dúzia deles. Só a manutenção da pintura deve ser incomportável. Seja como for, os grafiteiros já começaram a tratar dela. Afinal, estamos já na área metropolitana de Lisboa (não naquela que é traçada em mapas, mas na autêntica).
De repente aquele comboio provinciano transforma-se num comboio suburbano! Entram magotes de jovens, sobretudo negros, mas também, ao que tudo indica, operários da construção civil, negros e indianos (ou paquistaneses?) e de todo o espectro de cores. Os jovens vêm vaidosos, com indumentárias espampanantes, fios de ouro (?) ao pescoço, cabeleiras acrobáticas... Os operários vêm cansados, lancheiras ao lado e telemóveis à cintura, quais pistoleiros modernos.
Vila Franca de Xira. A linha segue entre o rio (perdão, estamos já no estuário) e a auto-estrada. Do lado do estuário, fábricas (algumas abandonadas), armazéns, contentores, restos de sapal e salinas abandonadas. Do lado da auto-estrada, prédios, prédios e mais prédios. Cada vez mais prédios.
Alhandra. A fábrica de cimentos, enorme entre um casario modesto, todo coberto de pó de cimento. Disse o Professor Saraiva, num dos seus programas de TV, que a terra muito deve a esta fábrica. Não será antes o contrário?
Importante mesmo é o estuário. Sem o Tejo não haveria Alhandra, muito menos esta cimenteira...
Póvoa. Santa Iria. Descubro que o "progresso" é imparável: A Póvoa de Santa Iria tem agora uma estação (Póvoa) e um apeadeiro (Santa Iria). Ambos, naturalmente, de tubos retorcidos.
Os passageiros começam a agitar-se, tiram os sacos, dirigem-se para as saídas. Já se vê a Ponte Vasco da Gama, a Gare do Oriente vai-se chegando.
19h00. Gare do Oriente. Pontual. Mais de metade dos passageiros sai. Afinal o metro está já ali em baixo. E também o centro comercial (pulula de gente, apesar de Agosto). A segurança é visível: elementos do corpo de intervenção circulam pela área coberta da Gare. Ou será já do centro comercial? Ou das galerias comerciais da gare? Ou dos acessos ao metro? Dir-se-ia que há tentáculos de sedução. Não há dúvida, chegámos a Lisboa.
(escrito de uma assentada numa quente tarde de Agosto de um ano já ido. estava em arquivo e foi repescado. há dias assim.)
Originalmente publicado no dia 17 de Outubro de 2008
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