Publicado originalmente em 02 de Fevereiro de 2010
Blogue de Henrique Souto (reeditado)
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
A moça do nariz arrebitado
Claro que a vi no Metro. Claro que não era propriamente moça. Intas sim, que isto de moças... Mas lá que tinha o nariz arrebitado, lá isso tinha! Não sei por que motivo, mas gosto de narizes arrebitados (nelas, claro). Além do nariz arrebitado, sorria. Um sorriso lindo. Quanto ao resto, a atirar para o moreno, cabelos castanhos, olhos também castanhos, mas claros. Havia por ali uma mistura qualquer que não consegui decifrar. Ai, se eu pudesse ver o seu ... ADN, certamente encontraria puro sangue árabe misturado com banto, misturado com ... Uma mistura explosiva. Saiu na mesma estação que eu. Oportunidade de dar uma olhada ao resto, já que ia sentada. Vestir informal, calças de ganga, boca de sino, a roçar pelo chão e a dar mostras disso mesmo. 'pera lá! Mudaram a estação? Aquela parede não costumava estar ali! Foram rápidos a mudar a estação, que ainda de manhã estava igual a todos os dias e agora... Ups, enganei-me na estação!
sábado, 25 de janeiro de 2014
Diz uma velha para outra velha...
Diz uma velha para outra velha: "Se eu chegar a velha..." Olhei para uma, olhei para outra e vi duas velhas. De onde se prova que nesta vida tudo é relativo. Nada a ver com as velhas (termo vernáculo e antigo para cidadão sénior, claro), pois neste momento, deslocado de casa, estou a ver um belo edifício de vários pisos, de tons claros e belas varandas, ideais para se estar a apanhar sol ou sombra ou ar, para ler, para blogar, para ver as vistas. E o que fizeram às varandas? Taparam-nas com todo o tipo de marquises possíveis de imaginar (pelo menos por algumas mentes). Eu, que adoro varandas, olho para aquilo e não consigo conceber disparate maior. Tornar o prédio escorreito num arco-íris não previsto pelo arquitecto, além de ser um atentado ao seu trabalho, um desrespeito pela lei e uma estupidez, revela bem o que vai na cabeça de algumas pessoas. Ganhar dois ou três metros quadrados de área coberta? Para quê? Qual a utilidade da coisa? Diz uma velha para outra velha...
Publicado originalmente no dia 9 de Agosto de 2009
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
O Homem das Caretas
I'm back. Voltei às minhas viagens de metro. E voltei a ver o homem das caretas (não, não é o Sócrates). Já o vi diversas vezes. Não dá para errar, é o homem das caretas. Já passa dos 60, veste fato claro e gravata estampada, sapatos engraxados e pasta barriguda a fazer adivinhar a papelada que lá vai dentro. Vai e vem da baixa, o que me deixa adivinhar um escritório bafiento, num edifício bafiento e um trabalho ainda mais bafiento. Entra na composição com uma careta de desconforto, faz uma careta por cada passo que dá; senta-se com uma careta, pousa a pasta e faz outra careta, tira o jornal e faz outra careta. Meticuloso, dobra o jornal, vinca-o e começa a ler, sempre com caretas. Sofrerá o homem de alguma doença dolorosa que o obriga a caretar (desconfio que não existe o verbo) constantemente? Será da vida bafienta que se adivinha que leva? De uma mulher chata? Ou é simplesmente tique? Bem, caretas daquelas costumam ter origem em dores, como a que o meu calo de Verão me costuma provocar. Estou atento: será que faço uma careta sempre que o calo me "pica"? Será que alguém acha que faço caretas constantemente? Vou passar a ter cuidado. E o homem das caretas? Qualquer dia meto conversa, a ver de onde vem aquele caretar.
Publicado originalmente em 02 de Setembro de 2009
sábado, 18 de janeiro de 2014
Entroncamento - Gare do Oriente
O comboio vem de Tomar. Pára em todas as estações e apeadeiros até à Azambuja. Depois, Vila Franca de Xira, Alverca, Póvoa e, finalmente, Gare do Oriente. Do Entroncamento, partida prevista para as 17H36. Pontual.
Composição antiga, lotação meio completa, metade das pessoas a dormitar; todas as janelas abertas, pois a tarde é de Agosto (a climatização não chegou ainda a estes comboios). Meia dúzia de homens, meia idade, amena cavaqueira. Todos ferroviários, pois claro. Uma mulher também de meia idade, duas ou três idosas, um velho (ou deverei voltar a escrever idoso?).
O comboio anda devagar, preguiçoso. Também a quente tarde não dá para mais. Mal arranca, eis o primeiro apeadeiro. Sai um passageiro, entra outro. Ambos idosos. Percebe-se que o comboio ainda desempenha, neste como noutros locais, uma importante função social. A este apeadeiro sucedem-se outros, e outras estações, estas últimas sempre com um edifício afastado da bilheteira onde se lê, em cantos opostos, WC Senhoras e WC Homens. Será isto que distingue estações de apeadeiros, um WC?
Os apeadeiros têm um ar modesto e quase sempre, mesmo ao lado, uma passagem de nível, onde aguardam, resignados, meia dúzia de automóveis. Casas de habitação, térreas, caiadas, estão já ali em cima da linha, íntimas. Que descanso será o daquelas gentes quando à noite passam os comboios de mercadorias? Mas quem se pode queixar se o nome da terra for Virtudes?
Estações e apeadeiros no meio do campo, entre tomatais e milheirais, do lado do rio, na lezíria que mais e mais se estende, pois que do lado oposto da linha é a charneca, ainda com alguns sobreiros e azinheiras, cada vez mais eucaliptais. Uns e outros apresentam uma uniformidade espantosa. Mais diversificadas são as gentes que em Santarém entram no comboio. Ele é o casal de idosos, o jovem par de namorados, a mulher de meia idade e, até, o despreocupado turista com máquina fotográfica ao pescoço. Noutros meses entrariam estudantes, entrariam militares, mas nem há aulas nem é sexta-feira. Seja como for, a carruagem começa a encher, o barulho das conversas aumenta. No banco oposto ao meu senta-se um casal jovem: ela ouve música, ele lê o Diário de Notícias e vai comentando uma ou outra notícia. Riem-se, despreocupados. Mais ninguém lê. Eu próprio abandonei o livro para me concentrar na paisagem, nas pessoas.
Chega, e senta-se, uma mulher com ar estafado. Encosta a cabeça à janela, abraça a carteira e começa a lutar com o cabelo, que o vento, audaz, que entra pelas janelas abertas, teima em desfazer. Acaba por desistir. Ninguém se atreve a fechar as janelas sob pena de sufocar e, assim como assim, mais vale o cabelo despenteado. A mulher sairá na Azambuja. Antes, porém, abrirá cuidadosamente a mala de onde retirará um anel e a aliança, colocando-os nos dedos. Que viria de fazer que a teria obrigado a retirar o anel e a aliança?
Azambuja, 18h30. Que contraste com a estação de Santarém! Nesta ainda há arquitectura, cal, azulejos; naquela só tubos retorcidos, escadas rolantes, maus grafitis a completar o desatre. A estação de Santarém tem-se mantido anos, seguramente só com uns baldes de cal; à de Azambuja não lhe dou meia dúzia deles. Só a manutenção da pintura deve ser incomportável. Seja como for, os grafiteiros já começaram a tratar dela. Afinal, estamos já na área metropolitana de Lisboa (não naquela que é traçada em mapas, mas na autêntica).
De repente aquele comboio provinciano transforma-se num comboio suburbano! Entram magotes de jovens, sobretudo negros, mas também, ao que tudo indica, operários da construção civil, negros e indianos (ou paquistaneses?) e de todo o espectro de cores. Os jovens vêm vaidosos, com indumentárias espampanantes, fios de ouro (?) ao pescoço, cabeleiras acrobáticas... Os operários vêm cansados, lancheiras ao lado e telemóveis à cintura, quais pistoleiros modernos.
Vila Franca de Xira. A linha segue entre o rio (perdão, estamos já no estuário) e a auto-estrada. Do lado do estuário, fábricas (algumas abandonadas), armazéns, contentores, restos de sapal e salinas abandonadas. Do lado da auto-estrada, prédios, prédios e mais prédios. Cada vez mais prédios.
Alhandra. A fábrica de cimentos, enorme entre um casario modesto, todo coberto de pó de cimento. Disse o Professor Saraiva, num dos seus programas de TV, que a terra muito deve a esta fábrica. Não será antes o contrário?
Importante mesmo é o estuário. Sem o Tejo não haveria Alhandra, muito menos esta cimenteira...
Póvoa. Santa Iria. Descubro que o "progresso" é imparável: A Póvoa de Santa Iria tem agora uma estação (Póvoa) e um apeadeiro (Santa Iria). Ambos, naturalmente, de tubos retorcidos.
Os passageiros começam a agitar-se, tiram os sacos, dirigem-se para as saídas. Já se vê a Ponte Vasco da Gama, a Gare do Oriente vai-se chegando.
19h00. Gare do Oriente. Pontual. Mais de metade dos passageiros sai. Afinal o metro está já ali em baixo. E também o centro comercial (pulula de gente, apesar de Agosto). A segurança é visível: elementos do corpo de intervenção circulam pela área coberta da Gare. Ou será já do centro comercial? Ou das galerias comerciais da gare? Ou dos acessos ao metro? Dir-se-ia que há tentáculos de sedução. Não há dúvida, chegámos a Lisboa.
(escrito de uma assentada numa quente tarde de Agosto de um ano já ido. estava em arquivo e foi repescado. há dias assim.)
Originalmente publicado no dia 17 de Outubro de 2008
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
A Senhora dos Anéis
Sentada. Mãos sobre o regaço. A mostrar os dedos das mãos. A mostrar os anéis que tinha nos dedos das mãos. Três anéis numa das mãos, quatro na outra. Olhei: "É obra!". Melhor, "são obras!" Obras porque cada um era mais elaborado que o outro. Trabalho de artista, pedras de quem ainda tem alguns euros para gastar em anéis. Sentada no metro, claro, que por acaso ia cheio, apinhado. Afinal sempre era o fim da tarde de uma 6º feira, véspera de feriado. Sentada, olhava com ar desconfiado para os indígenas, todos mal aparelhados, cinzentos, tristes. Em suma, em crise. Também vestia bem: sapatos a brilhar, meias a realçar o que tem de ser realçado, saia justa, blusa .... vaporosa, para o transparente (apenas a mostrar o indispensável) mas com manchas pretas (tipo pele de leopardo, mas sem ser assim tão vulgar). Cabelo arranjado, pele cuidadíssima, pintura discreta. Mãos cuidadas, unhas arranjadas, pintadas de vermelho, claro. Idade? Entas. Mas entas muito bem cuidados! Próxima estação. Levanta-se e volta a olhar desconfiada para os indígenas. Olha também para o decote, a ver se não mostra mais do que o necessário. Não, não mostra mais do que o necessário! Sai. Ar vagaroso. Petulante. Estava claramente no filme errado. Quanto a mim, continuo a achar o metropolitano o melhor transporte do mundo.
Publicado originalmente em 30 de Abril de 2010.
Apresentação
Entre Setembro de 2008 e Janeiro de 2011 mantive o "Blogue de Henrique Souto", numa tentativa de me sentir vivo e activo. Procurei publicar todos os dias (o que não foi fácil e nem sempre cumprido), mas não aguentei a coisa para além de Janeiro de 2011. Alguns dos posts publicados são do meu agrado, outros não. Como gosto de partilhar - e mais uma vez para me sentir vivo e activo - resolvi republicar alguns posts, agrupando-o em alguns casos. Espero que gostem.
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